segunda-feira, 22 de março de 2010

Tatá



Logo que eu formei em Relações Públicas, em 74, ganhei uma bolsa, junto com Boni Fácil, para um curso de Especialização em Administração, oferecido pela João Pinheiro.
  
O curso era punk.  De começo de janeiro a fim de dezembro, aula na Pampulha de 8 da manhã às 6 da tarde.  Pra piorar, o programa era em convênio com a Columbia University, de New York, com os professores não fazendo o menor esforço pra falar em português.
Tudo na língua de Shakespeare, com um forte sotaque novaiorquino do William Damon, nosso professor de Finanças e de Operational Research.
    
Esta ralação me deu dois presentes inesquecíveis na vida.  Um, uma belíssima base em marketing.  E a outra, a turma que fez o curso comigo.  Nunca mais me separei de nenhum dos dois.
         
Gêisa morria de rir quando, vez por outra, o telefone tocava aqui em casa e o recado, enigmático, era dado:
-  Hoje tem.
Era a convocação pra gente se sentar em uma mesa de bar pra, fundamentalmente, rir uns dos outros.
E lá íamos todos.  João, Jorjão, Lucho, Muriaé, Biano, Tatá.  Esses, habitués.  Esporádicos, apareciam Boni, Flora, Evangelina, Hércules, Luiz Eymard, Jaldo.  Mesmo quando a gente não se encontrava, a gente era inseparável.
 
Nós ficamos um tempo sem nos ver.  Primeiro, depois que Tatá teve seu maxilar destroçado por um câncer avassalador.  Depois, o meu, mais discreto que o dele.

Há coisa de uns dois meses atrás, apareceram aqui em casa João, Tatá e Jorjão.  Pra me ver.
Tatá estava bastante orgulhoso de ter ganho a batalha e queria me dar uma injeção de ânimo.  Não restava nenhum traço da doença.  Ele estava lindo.
Me chamou duas vezes num canto, isolado da turma, pra me dizer:
-  Bichão, qualquer problema que você tiver, me chama e eu venho cá pra gente conversar.
Como as coisas estavam correndo bem, não liguei.
Tatá ligou, reclamando que eu não dava notícias.
É porque está tudo bem, dizia eu.
E Tatá desligava rindo.
          
Semana passada João veio cá em casa, no fim da tarde.  Sem pauta.  Só pra rir.
E contava do vexame que ele e Tatá passaram juntos, trazendo a baita lancha que Tatá tinha comprado em Santa Catarina.  Troço de cinema.  Dois motores, três cabines, chic no último. 
E João vomitando de lá até chegar em Angra.
Tatá tinha resolvido, depois da doença, dar atenção pras coisas que ele realmente gostava na vida.
   
Na madrugada de sábado pra domingo, um muro de concreto que avançava pela lagoa adentro, na Várzea das Flores, em Contagem, pregou uma peça na lancha do Tatá e nos deixou aqui, sofrendo com a ausência dele.
 

6 comentários:

Adriana disse...

Não entendi o fim da lancha de Tatá!

PC disse...

Tatá morreu, Aninha, justo na hora que tinha decidido cuidar mais da vida dele e das pessoas que ele gostava...

Flora Iscold disse...

Liga não bobo, ficamos com as melhores lembranças dele e assim ele continua perto de nós.
Quando a Marianna caiu da bicicleta e arregaçou os dentes fui com ela numa dentista doida que me dizia enquanto estava mechendo na boca dela que muito em breve não haveria mais anestesia e que nós iríamos usar nossa energia (tipo ET) para curar a dor, etc.... A comunicação seria feita só pelo pensamento, sem precisar estar perto da pessoa. Quando alguém muito querido morre eu lembro da dentista e fico treinando a conecção por pensamento. As vezes dá muita interferência ,mas sabe que é danado de bom! Um dia vou ser boa nisto.
Te amo muito!!!!!
Beijos
Flora

Daniel Pittella disse...

Ainda não li as últimas postagens. Será que devo?

PC disse...

Tem uma bruxa boa me ensinando a meditar, Flora.
Vou tentar com ela.
Beijos

PC disse...

Calma, DannyBoy.
Mantenho você informado.
Beijos