quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Pensa no Richarlyson - 06


Lisa, minha filha do meio, nasceu pra trabalhar com web. Pensa web, respira web, planeja web, tudo dela é web. Manja do assunto pra danar. [1]
E eu lá, com a cabeça fervendo, a mil, esperando a marcação da data da operação, sem saber direito o que me esperava, recebo um email dela, que dizia assim:
- Pai, está triste? Pensa no Richarlyson.
Junto, me mandou o link de um blog de um menino de 13 anos, filho de jornalistas esportivos, e que era louco com futebol, cujo link vai aqui, pra quem também for fanático pelo assunto.(http://colunistas.ig.com.br/mauriciostycer/2009/08/16/um-menino-de-13-anos-da-uma-aula-sobre-richarlyson/) .
A bem da verdade, fiquei com um pouquinho de preguiça do menino, meio bem articulado demais pra quem tem só 13 anos. Deu a impressão que era daqueles meninos chatos, oniscientes, que já sabia o caminho das pedras desde sempre. Achei que ele faria melhor se fosse jogar bola, em vez de estar atualizado até o osso sobre a questão.
Mas como o assunto do link era preconceito, deixei o meu de lado pra compartilhar a história com você.
Lá vai:
“...
Ontem eu estava reclamando com meu pai da escola, dizendo que ela enchia o meu saco, que me sentia deprimindo com a “má fase” dos últimos tempos. Na lata, antes de desligar o telefone, ele me respondeu: “Tá triste? Pensa no Richarlyson.” Em um ato incomum nos últimos tempos, obedeci-o. E senti dificuldades em dormir. Porque fiquei pensando. E por bastante tempo. Confesso que caiu uma lágrima quando eu me lembrei do jogo entre São Paulo x Goiás, no ano passado, quando na comemoração pelo título, ao invés de gritarem o nome de Ricky (como gritaram o de seus 23 companheiros), entoaram um imbecil “Bicha! Bicha!”
Imagino como deve ser para ele ver a torcida Independente (depois falo dessas antas) gritando o nome do Sérgio Motta (com todo o respeito) e não o dele. Um cara que deu a vida pelo São Paulo em 2006, 2007 e 2008. Que para mim, mais que Thiago Neves e que Hernanes, foi o melhor jogador do Brasileiro em 2007.
O cara é xingado no Domingo, e treina na Segunda. Dando o máximo de si. É o mais simpático possível com os companheiros. Não deixou de me cumprimentar em todas as vezes em que visitei o CCT do São Paulo. Antes de eu ir lhe pedir autógrafo. Mais gente fina impossível. Humilde.
Eu não sei se Richarlyson é homossexual. Também não quero saber. Mas sei que ele é um exemplo. Um exemplo para todos que se sentirem mau em momentos difíceis. Pense em como é viver um momento difícil, tendo todos contra você durante mais de três anos seguidos. Sei que, desde os tempos do Aloísio, não vejo um cara tão gente boa no elenco do São Paulo. E olha que tem muita gente boa ali.
Não sei se os atos que ele faz são homossexuais. Não quero saber, afinal saber para que? Se eu descobrir que ele é um homo que pega 20 na parada gay, ou que ele é o cara mais macho do mundo, vou continuar tratando ele da mesma forma. Por tudo o que ele passou, pelo que ele passa, e pelo que ele passará.
As torcidas brasileiras são em tese, muito escrotas. A Independente é uma das que passa muito da linha. Conseguem se rebaixar a um nível de imbecilidade e cultural tremendo, em um passe de mágica. Nada de bom sai dela, tudo. Músicas sem graça e racistas (quem não se lembra da que tem preconceito contra favelados?), atitudes impensadas (rezo para que, pois se forem pensadas, aí chegarei a conclusão que eles tem um QI de formiga), preconceitos expostos e tudo que tem de ruim.
Eu não sei se ele é gay, mas tenho guardada e enquadrada um trecho de uma entrevista de Muricy Ramalho para a revista Trivela em Dezembro de 2006: “Os caras adoram ele aqui dentro. Ele é alegre pra cacete, está toda hora pronto para tudo, nunca reclama de nada, é sempre um dos primeiros a chegar. É determinado e responsável: faz faculdade à noite, quando tem concentração eu libero ele para ir na aula. Ele sabe muito bem o que quer, por isso saiu desta situação. E ele brigou com coisa feia. Eu sei com o que ele brigou, e foi fodido. A palavra é essa. Foi um puta homem. Por isso é que ele superou essa situação”
Concordo com tudo o que Muricy disse. Os imbecis da Independente não tem mente para isso, mas espero que vocês tenham.
FORÇA RICHARLYSON! INDEPENDENTE QUE EMENDE! FORÇA RICHARLYSON!”

Esta história foi avassaladora pra mim. Comecei a pensar na quantidade de gente com problemas muito mais sérios e graves que os meus e que, ainda assim, levavam a vida sem nenhum drama, cheios de esperança e projetos de futuro.
E o melhor da história: eu não entendendo nada de futebol e nem imagino qual seja a escalação do meu Galo. Imagina a do São Paulo...
Mas o efeito foi preciso. Qualquer dorzinha, qualquer tristezazinha ou malestarzinho, já enxergava a figura da Lisa, falando comigo:
- Pai, tá triste? Pensa no Richarlyson!
A grande lição desta história toda é que a gente aprende a ver a exata dimensão da nossa (des)importância. Aprendi direitinho a ver o que é prioridade e o que vale a pena de verdade.


[1] Pois é... Filho dos outros, é um nerd chato. Quando é minha Lisa, é um talento singular.
Quem? Parcial, eu?

9 comentários:

Maria Elisa disse...

Pai, me irrita o tanto que vc é apaixonado comigo. mas assim... são seus olhos... :D
bjometwitta

PC disse...

Quem, parcial?
Eu?

Regina disse...

Minha afilhada. Não é linda??? Caprichei na hora do Pai Nosso, no batizado. Valeu a fé...

PC disse...

Aposto que ela ficou irritada também...

Regina disse...

Filha de quem mesmo??

Adriana disse...

Declaração de amor pela web, só pra Lisa mesmo, né?

Beijos

Luiz Artur disse...

Logo com a Lisa, a filha do meio, que sempre foi preterida!

Ainda há tempo de se recuperar!

TiCuca

PC disse...

O, dó...

PC disse...

Aninha,
Boa idéia.
Vou ter que twittar pra fazer uma declaração pra ela...